Tarifa média doméstica chegou a R$ 632 em maio de 2026, mas governo prorroga desoneração do combustível de aviação até julho.
Quem comprou uma passagem aérea nos últimos meses provavelmente sentiu o impacto direto no cartão de crédito. Segundo dados divulgados pela ANAC em 24 de junho de 2026, a tarifa aérea real média das passagens domésticas vendidas no Brasil chegou a R$ 632,53 em maio de 2026, alta de 11,2% em relação ao mesmo mês de 2025, quando o valor médio era de R$ 568,96. O número preocupa consumidores, mas o cenário tem pelo menos uma explicação bem definida: o preço do querosene de aviação (QAV), que continua pressionando os custos das companhias e, consequentemente, os preços ao passageiro. Poder360
O curioso é que esse crescimento acontece ao mesmo tempo em que o setor registra números históricos de demanda. De janeiro a maio, o Brasil teve 42 milhões de passageiros em voos domésticos, alta de 6% em relação aos 39,8 milhões registrados no mesmo período de 2025. Mais gente voando, mas pagando mais caro. Esse paradoxo revela a complexidade de um setor que cresce em volume, mas ainda enfrenta gargalos estruturais que encarecem a operação. Poder360
Por que as passagens estão mais caras mesmo com mais voos?
A resposta mais direta está no combustível. O comportamento das tarifas é influenciado principalmente pelo preço do QAV (Querosene de Aviação). O insumo, que chega a representar entre 30% e 40% dos custos operacionais de uma companhia aérea, tem oscilado significativamente desde o início de 2026. Em razão da crise mundial do querosene de aviação, iniciada no final de fevereiro com a eclosão do conflito no Oriente Médio, a ANAC vem monitorando os possíveis efeitos na malha aérea brasileira, de forma a contribuir com as políticas públicas voltadas ao setor. Poder360Bem Paraná
Para conter o impacto, o governo federal tomou uma medida emergencial. Em abril, o governo zerou temporariamente as alíquotas de PIS/Pasep e Cofins incidentes sobre a importação e a comercialização do querosene de aviação. A medida valeria até 31 de maio, mas foi prorrogada até 31 de julho. A estimativa é que cada mês de desoneração represente cerca de R$ 40 milhões em renúncia fiscal. Ainda assim, o alívio no preço do combustível não foi suficiente para reverter a alta das tarifas, que continuaram subindo na comparação anual. Poder360
Outro fator que pesa é a concentração de mercado entre as três grandes operadoras nacionais. Considerando o indicador de passageiros-quilômetros transportados (RPK), a participação das empresas aéreas no mercado doméstico em maio de 2026 foi liderada pela Latam, com 41,32%; seguida pela Gol, com 31,02%; e pela Azul, com 27,63%. Com apenas três companhias dividindo praticamente todo o mercado interno, a pressão competitiva que poderia segurar as tarifas ainda é limitada. Bem Paraná
Qual o perfil das passagens vendidas e quem consegue voar mais barato?
Apesar da alta na tarifa média, uma parcela significativa dos bilhetes ainda é comercializada em valores acessíveis. Segundo a ANAC, 49,1% das passagens domésticas comercializadas ao público em geral em maio de 2026 foram vendidas por menos de R$ 500. Desse total, 20,7% custaram até R$ 300 e 28,4% ficaram na faixa entre R$ 300 e R$ 500. No outro extremo, 5,4% dos bilhetes foram vendidos por mais de R$ 1.500. Poder360
Esses números mostram que ainda existe uma fatia relevante de passagens acessíveis no mercado, especialmente para quem planeja com antecedência e tem flexibilidade de datas. O problema é que as tarifas mais baratas tendem a ser vendidas com meses de antecedência, em assentos limitados, e desaparecem rapidamente para destinos populares em alta temporada. Para quem precisa comprar com pouco tempo de antecedência ou viaja em datas fixas, o custo sobe consideravelmente.
A perspectiva para os próximos meses aponta para uma possível estabilização, desde que o preço do QAV não registre novos picos. A desoneração do combustível até julho é um amortecedor importante, mas de curto prazo. O governo federal lançou a Agenda Conectar, que propõe revisar medidas tributárias, ampliar o acesso a crédito e modernizar a gestão do tráfego aéreo, além de avançar na cadeia de suprimento do querosene de aviação. A redução desses custos tende a se refletir diretamente em passagens mais acessíveis e fretes mais competitivos. GOV.BR
O que pode mudar com mais concorrência no mercado aéreo?
A chegada de novas companhias ao mercado brasileiro é vista como uma das ferramentas mais eficazes para pressionar as tarifas para baixo no médio prazo. A ANAC autorizou duas novas companhias aéreas estrangeiras a operar no Brasil no transporte aéreo internacional regular de passageiros e carga. As empresas liberadas são a espanhola Wamos Air S.A. e a nigeriana Air Peace Ltd. As autorizações seguem o movimento estratégico do governo de ampliar a presença de operadores internacionais como forma de diversificar a oferta. BNews RN
No segmento doméstico, o cenário também está em transformação. O mercado brasileiro poderá receber novas companhias nacionais focadas em aviação regional. Uma das empresas citadas é a futura POP Linhas Aéreas, ligada à Total Linhas Aéreas. A proposta é conectar cidades menores que atualmente possuem pouca oferta de voos comerciais. A lógica é que mais operadores em rotas regionais reduzam o gargalo de conectividade do interior do país e criem alternativas viáveis às grandes capitais. Agenciagbc
Ainda assim, especialistas do setor alertam que o efeito da concorrência sobre as tarifas não é imediato. Novas companhias precisam tempo para construir malha, escalar operações e ganhar fatia de mercado antes que sua presença impacte efetivamente os preços. Enquanto o QAV seguir volátil e a oferta de aeronaves globais continuar restrita por gargalos na cadeia de produção dos fabricantes, o passageiro brasileiro provavelmente seguirá convivendo com passagens acima dos patamares históricos por mais uma temporada.
Fontes: ANAC / Poder360 | Governo Federal / Portos e Aeroportos | ND Mais
Autor: Diego Rodríguez Velázquez
