Para o executivo com atuação em reestruturação empresarial e gestão estratégica, Valdoir Slapak, a redução de estrutura em um turnaround é uma das decisões mais sensíveis do processo, porque envolve ajustar custos sem comprometer a capacidade de gerar receita e de executar a recuperação. A pergunta central deixa de ser quanto cortar e passa a ser o que a empresa precisa preservar para voltar a crescer.
Definir o que preservar exige um critério claro, ligado às atividades que sustentam a geração de caixa, ao relacionamento com clientes e à capacidade de entrega. Nesse cenário, a reestruturação empresarial ganha método, e as decisões deixam de ser orientadas apenas pela urgência de reduzir despesas.
Por que reduzir estrutura exige critério?
Em uma crise, a tentação de reduzir a estrutura de forma ampla é grande, porque os custos de pessoal, espaço e serviços representam parte relevante das despesas fixas. No entanto, reduções sem critério podem eliminar competências, desorganizar a operação e comprometer a receita de que a empresa precisa para se recuperar. Cada área deve ser avaliada pelo papel que exerce na recuperação, e não apenas pelo tamanho do seu orçamento.
Valdoir Slapak ressalta que a redução de estrutura é diferente de uma redução de custos pontuais, pois altera a capacidade da empresa de operar. Por esse motivo, ela deve ser tratada como uma decisão estratégica, com análise do impacto sobre a receita, os prazos de entrega e a qualidade do serviço. A ordem de decisão importa: primeiro entender a função de cada área, depois definir o ajuste.
Uma redução bem desenhada é aquela que a empresa consegue sustentar depois da recuperação, sem precisar refazer a estrutura com urgência quando a demanda se normalizar. Esse cuidado também preserva a confiança das equipes, que percebem critério onde poderia haver apenas corte.
Quais critérios usar para decidir o que preservar?
Alguns critérios ajudam a orientar a decisão: a contribuição da área para a receita e a margem, o grau de dependência de outras áreas, a dificuldade de reposição de competências e a relação entre custo e resultado entregue. Atividades de apoio também devem ser avaliadas pelo valor que geram, e não apenas pelo custo que representam. Quando possível, a avaliação deve usar dados de receita, custo, produtividade e qualidade de entrega, e não apenas impressões.
Valdoir Slapak descreve que o ponto de partida é o mapa de processos que sustentam o cliente, a entrega e o caixa. Em seguida, é possível classificar as áreas em três grupos: as que devem ser preservadas, as que podem ser ajustadas e as que podem ser consolidadas ou encerradas, sempre com base em dados. Esse mapa evita que áreas essenciais sejam ajustadas apenas por serem pouco visíveis.

Essa classificação dá transparência ao processo e reduz o risco de decisões baseadas em percepções. A análise financeira por área, com receita, custo e margem, é a base para a conversa com sócios e gestores. O resultado pode ser documentado em uma matriz simples, que facilita a revisão quando as condições da empresa mudarem.
Como equilibrar custo, desempenho e recuperação?
A redução de estrutura deve ser planejada junto com as metas de recuperação. Se a empresa precisa reconquistar receita, melhorar prazos de entrega ou retomar investimentos em vendas, as áreas ligadas a esses objetivos exigem proteção, ainda que seus custos sejam relevantes. Ajustes bem calibrados protegem o que gera resultado e eliminam o que pesa sem retorno.
Valdoir Slapak aponta que o grupo responsável pela recuperação, o chamado Management Team e Restructuring, deve monitorar os efeitos de cada ajuste sobre a eficiência operacional e a receita, com indicadores simples e atualizados. Da mesma forma, as mudanças devem ser comunicadas com clareza às equipes, para que as pessoas entendam o motivo das decisões e o que se espera delas. Indicadores como receita por área, prazo de entrega e custo por atividade ajudam a perceber rapidamente se o ajuste produziu o efeito esperado.
Quando a redução é seguida de metas claras para as equipes que permanecem, a empresa preserva o desempenho e reduz o risco de perda de pessoas-chave. A comunicação clara sobre critérios e prazos reduz a incerteza e ajuda a manter o foco na recuperação.
Como evitar que a estrutura volte a crescer sem critério?
Depois da redução, é comum que a estrutura volte a se expandir quando os resultados melhoram. Para evitar esse movimento, a empresa deve manter regras para novas contratações, novos contratos e criação de áreas, com avaliação do retorno esperado e do efeito sobre o caixa. Essa disciplina preserva o ganho obtido na recuperação e evita que a empresa retorne ao ponto anterior.
A disciplina de caixa depende de revisões periódicas da estrutura, com a mesma lógica adotada durante o turnaround: custo, benefício e contribuição para o resultado. Essa rotina impede que os custos fixos voltem ao patamar anterior sem justificativa. Essa verificação periódica também mostra se alguma área precisa ser reforçada à medida que a demanda se recupera.
Reduzir estrutura em um turnaround é uma decisão que combina método e prudência: mapear os processos essenciais, definir critérios de preservação, monitorar os efeitos dos ajustes e manter regras para novas despesas. Esse caminho fortalece a gestão empresarial, protege a eficiência operacional e dá à recuperação uma base mais estável.
