A Agência da União Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) anunciou, em 15 de julho de 2026, um novo marco regulatório para os dispositivos de treinamento de simulação de voo, conhecidos pela sigla FSTD. A mudança atualiza a forma como esses equipamentos são descritos e avaliados, substituindo a lógica baseada apenas em tipos e níveis fixos por uma abordagem centrada nas capacidades técnicas efetivamente disponíveis em cada dispositivo.
O objetivo é criar um modelo mais flexível para acompanhar a evolução dos simuladores e das ferramentas utilizadas na formação aeronáutica. A nova estrutura foi estabelecida pelo Regulamento (UE) 2026/781 e conta com o apoio das especificações de certificação CS-FSTD Issue 1. Para escolas de aviação, centros de treinamento e instrutores, a alteração pode facilitar a identificação do equipamento mais adequado a cada atividade de capacitação.
O que muda nas regras para simuladores de voo
De acordo com a European Union Aviation Safety Agency, a principal inovação é a criação da FSTD Capability Signature. A metodologia padroniza a descrição das capacidades de um dispositivo, permitindo que suas características técnicas sejam apresentadas de maneira mais clara e comparável.
Na prática, a proposta desloca o foco da classificação tradicional do simulador para aquilo que ele consegue reproduzir e oferecer durante o treinamento. Essa mudança pode ajudar organizações de formação a relacionar objetivos específicos de aprendizagem com recursos concretos, sem eliminar os requisitos regulatórios associados à segurança, à qualificação e à demonstração de competências.
A EASA também apresentou a metodologia opcional task-to-tool, que relaciona uma tarefa de treinamento ao dispositivo de simulação considerado mais apropriado para executá-la. O recurso pretende apoiar decisões mais precisas sobre o uso de equipamentos, especialmente em programas que combinam diferentes níveis de complexidade e modalidades de treinamento.
Realidade estendida entra no radar da formação
O novo marco inclui regras específicas para tecnologias que vêm ganhando espaço na simulação, como interfaces de cabine sensíveis ao toque e aplicações de realidade estendida, conhecida pela sigla XR. A inclusão desses recursos sinaliza que a regulamentação europeia busca acompanhar soluções diferentes dos modelos tradicionais de cabine e visualização.
Para estudantes e pilotos em formação, a mudança não significa que qualquer tecnologia poderá substituir automaticamente os dispositivos já utilizados nos cursos. A adoção continua condicionada à capacidade do equipamento de atender aos objetivos de treinamento e aos requisitos aplicáveis. A flexibilidade regulatória, portanto, está associada à comprovação das capacidades e não apenas à presença de uma tecnologia considerada inovadora.
Os simuladores são utilizados para praticar e manter competências em condições realistas. Segundo a EASA, esse tipo de treinamento também pode contribuir para a eficiência da preparação profissional e reduzir riscos e impactos ambientais relacionados a determinadas atividades práticas. O resultado esperado é uma integração mais objetiva entre tecnologia, desempenho e segurança operacional.
Impactos para escolas, instrutores e pilotos
As escolas de aviação poderão precisar analisar seus dispositivos com base nas capacidades que oferecem para cada tarefa, em vez de considerar somente a categoria geral do simulador. Essa avaliação pode influenciar a escolha de equipamentos, o planejamento das sessões e a organização dos programas de instrução, embora os efeitos concretos dependam da implementação das novas regras no contexto europeu.
Para instrutores, a metodologia pode oferecer uma referência mais detalhada na seleção de ferramentas para exercícios específicos. Já para os alunos, a principal consequência tende a ser uma formação mais alinhada ao tipo de competência que precisa ser desenvolvida, especialmente quando diferentes dispositivos são combinados ao longo do curso.
A EASA informou que disponibilizará materiais de orientação, um manual de implementação e workshops para apoiar a adoção do modelo. A primeira sessão geral de apresentação do programa está prevista para 15 de dezembro de 2026, em Colônia, na Alemanha, com outras atividades planejadas para o fim de 2026 e ao longo de 2027.
Uma resposta à demanda futura por profissionais
A modernização ocorre em um cenário de expansão das necessidades globais de formação aeronáutica. Em seu Pilot and Technician Outlook 2026–2045, a Boeing projeta uma demanda aproximada de 674 mil novos pilotos até 2045, além de profissionais de manutenção e tripulantes de cabine. Trata-se de uma projeção da empresa, e não de uma estimativa oficial da EASA.
A ampliação do uso de treinamento baseado em competências e de tecnologias imersivas é apontada pela Boeing como parte da preparação dessa força de trabalho. Nesse contexto, regras capazes de reconhecer diferentes configurações de simuladores podem influenciar fabricantes, centros de treinamento e autoridades que acompanham a evolução da formação de pilotos.
Embora o anúncio tenha aplicação inicial no ambiente regulatório europeu, o tema interessa ao setor aeronáutico de outros países. A discussão sobre como avaliar capacidades, integrar realidade estendida e escolher a ferramenta adequada para cada tarefa pode contribuir para futuros debates regulatórios e educacionais, inclusive em mercados que acompanham as tendências estabelecidas pela EASA.
