Por que o idoso sente dor nos dentes mesmo sem cárie e o que esse sintoma pode revelar sobre mandíbula e nervos?

Diego Velázquez
5 Min de leitura
Yuri Silva Portela

Conforme alerta o Doutor Yuri Silva Portela, pós-graduado em geriatria, a dor dentária no idoso que não tem cárie nem doença periodontal aparente é um dos sintomas que mais frequentemente levam a tratamentos odontológicos desnecessários antes que a causa real seja identificada. Extração de dentes saudáveis, próteses refeitas sem necessidade e tratamentos de canal em dentes sem infecção são procedimentos realizados com relativa frequência em idosos com dor de origem não dentária que foi equivocadamente tratada como problema odontológico.

Nas próximas linhas, abordaremos as causas mais comuns dessa dor e quando ela indica algo além da saúde bucal.

Por que a dor pode vir dos dentes sem ser dos dentes?

A dor dentária tem uma característica neurológica específica que a torna particularmente difícil de localizar com precisão: os nervos que inervam os dentes fazem parte do sistema trigeminal, a maior via nervosa da face, que também inerva a mandíbula, as gengivas, os seios paranasais, a articulação temporomandibular e parte da região temporal. Quando qualquer estrutura inervada por esse sistema está comprometida, o cérebro pode interpretar a dor como originária dos dentes, mesmo quando eles estão completamente saudáveis, fenômeno denominado dor referida.

Yuri Silva Portela aponta que a dor referida de origem cardíaca é um dos exemplos mais clinicamente importantes dessa situação no idoso: angina e infarto podem se manifestar como dor intensa na mandíbula inferior e nos dentes do lado esquerdo, sem qualquer desconforto no peito. Esse padrão, mais frequente em mulheres e em idosos diabéticos com neuropatia autonômica, é responsável por diagnósticos perdidos de emergências cardiovasculares que se apresentaram inicialmente como queixa odontológica.

O papel da articulação temporomandibular e do bruxismo no idoso

A articulação temporomandibular, que conecta a mandíbula ao crânio logo à frente do ouvido, é uma estrutura frequentemente comprometida no idoso por desgaste articular, perda de dentes posteriores que altera a oclusão e tensão muscular crônica. Quando essa articulação está inflamada ou disfuncional, produz dor que irradia para os dentes, o ouvido, a têmpora e o pescoço de uma forma que frequentemente é confundida com dor dentária ou otite.

Yuri Silva Portela
Yuri Silva Portela

No entendimento de Yuri Silva Portela, o bruxismo, hábito de ranger ou apertar os dentes durante o sono, é significativamente mais prevalente em idosos com ansiedade crônica, uso de certos antidepressivos e apneia do sono não tratada. Esse hábito produz desgaste dentário, sobrecarga da articulação temporomandibular e dor muscular nos masseteres e nas têmporas, que o idoso frequentemente descreve como dor nos dentes, especialmente ao acordar.

Quando a dor dentária sem causa aparente indica neuropatia?

A neuropatia trigeminal, inflamação ou dano ao nervo trigêmeo, pode produzir dor intensa, em queimação ou em choque elétrico, na região dos dentes sem que haja qualquer patologia dentária identificável. Essa condição, denominada neuralgia do trigêmeo, quando se manifesta em episódios de dor extremamente intensa desencadeados por estímulos leves, como mastigar, falar ou tocar o rosto, é significativamente mais prevalente em idosos e frequentemente passa anos sem diagnóstico correto, enquanto o paciente é submetido a procedimentos odontológicos que não resolvem o problema.

Yuri Silva Portela indica que a neuropatia diabética também pode afetar os nervos da face e produzir dor, formigamento ou dormência na região dentária que não tem origem nos próprios dentes. Por essa razão, o idoso diabético com controle glicêmico inadequado que apresenta dor dentária persistente sem causa odontológica identificada deveria ter a neuropatia periférica facial incluída no diagnóstico diferencial antes de qualquer procedimento invasivo.

O que fazer quando a dor dentária não responde ao tratamento odontológico?

Quando o idoso apresenta dor dentária persistente que não melhora após tratamentos odontológicos adequados, o encaminhamento para avaliação médica multidisciplinar é a conduta correta. Cardiologista para descartar causas cardiovasculares, neurologista para investigar neuropatia trigeminal e reumatologista para avaliar a articulação temporomandibular são especialistas que frequentemente identificam a causa real de uma dor que o dentista corretamente tratou como não dentária.

Como reforça Yuri Silva Portela, o idoso com dor nos dentes sem cárie não está inventando nem exagerando: está apresentando um sintoma real com origem que a odontologia sozinha frequentemente não consegue identificar. A dor que vem dos dentes sem vir dos dentes merece investigação multidisciplinar, que a medicina geriátrica tem responsabilidade de coordenar.

 

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