O advogado Rodrigo Pimentel acompanha questões empresariais e societárias, fator este que é crucial para a compreensão das negociações envolvendo empresas familiares, especialmente no que diz respeito à capacidade de manutenção das operações após a saída do fundador. Em caso de venda ou entrada de um novo investidor, a avaliação extrapola os balanços e projeções financeiras, abrangendo também a autonomia da gestão, a distribuição de responsabilidades e a continuidade dos resultados mesmo na ausência do fundador.
Famílias empresárias geralmente calculam o valor do negócio com base no faturamento, no lucro e no patrimônio. Compradores e herdeiros, por outro lado, também observam outros fatores: quem toma as decisões, como os resultados são apurados e os riscos da estrutura.
O valor percebido cai quando a resposta é incerta. A falta de governança e a dependência do fundador são fatores que explicam a diferença de avaliação entre empresas com resultados semelhantes. A seguir, veremos o que a família pode fazer para reduzir essa distância.
Os fatores que influenciam a percepção de valor de uma empresa
Os métodos mais empregados no valuation, tais como o fluxo de caixa descontado e a comparação por múltiplos de mercado, partem da mesma lógica: uma empresa tem valor igual ao valor esperado de sua futura geração de resultados, ajustado pelo risco de tal expectativa não se confirmar. Quanto maior a incerteza, maior o desconto aplicado sobre os resultados projetados.
Fatores qualitativos têm peso no ajuste. Uma empresa com gestão profissional, informações confiáveis e regras claras de decisão pode ter um desempenho distinto de outra que dependa de uma única pessoa e tenha contas pouco transparentes. O advogado Rodrigo Pimentel observa que esses elementos muitas vezes só são percebidos pela família durante a negociação, quando o desconto já está sobre a mesa.
O valuation é usado também fora das vendas. Ele aparece na saída de um sócio, na apuração de haveres em uma dissolução parcial, na partilha entre herdeiros e no cálculo de tributos sobre a transmissão de quotas. Nessas situações, a forma de avaliação definida previamente nos documentos societários evita que o valor se torne objeto de disputa.
Fatores que reduzem a percepção de valor
A dependência do fundador e a falta de governança se manifestam de várias formas, e cada uma delas aumenta o risco percebido por quem avalia o negócio. Entre os fatores mais comuns estão:
- Concentração das decisões: quando todas as escolhas estratégicas e operacionais passam por uma única pessoa, a saída dela ameaça a continuidade da empresa.
- Relacionamentos pessoais com clientes e fornecedores: contratos e parcerias que dependem da confiança no fundador podem não se manter após a mudança de comando.
- Informações financeiras pouco confiáveis: demonstrações sem auditoria, despesas pessoais pagas pela empresa e controles informais dificultam a análise e aumentam o desconto.
- Mistura entre patrimônio pessoal e empresarial: imóveis da família usados sem contrato, garantias pessoais e retiradas sem critério criam passivos difíceis de mensurar.
- Ausência de regras societárias: a falta de acordo de sócios, de critérios de avaliação de quotas e de regras de saída aumenta o risco de conflitos entre herdeiros.
- Inexistência de sucessão planejada: sem um plano para a troca de comando, o comprador ou investidor assume sozinho o risco de transição.
Além disso, o Dr. Rodrigo Gonçalves Pimentel, especialista em estruturação patrimonial internacional, destaca que esses fatores se somam. Uma empresa que depende do fundador e, simultaneamente, possui contas misturadas com as da família, oferece ao avaliador dois motivos para reduzir o valor, e cada um deles torna o outro mais difícil de corrigir.
O ponto de vista de Sideni Soncini Pimentel, advogado e desembargador aposentado com mais de quatro décadas de magistratura, contribui para a compreensão do impacto desses fatores quando a avaliação ocorre em um litígio. Na apuração de haveres ou na partilha judicial, a ausência de regras e de documentação consistente amplia o espaço para divergências entre peritos e prolonga a solução do conflito.

Governança como componente de valor
A construção de estruturas sólidas pode aumentar o valor, se a falta de governança o reduz. Uma diretoria atuante, um conselho de administração, demonstrações financeiras auditadas e regras societárias claras reduzem a incerteza e, consequentemente, o desconto aplicado.
Em avaliação de Rodrigo Gonçalves Pimentel, esse processo deve ser iniciado em tempo hábil, antes de qualquer negociação. Mudanças implementadas em vésperas de uma venda são frequentemente recebidas com reservas. Em contrapartida, estruturas que operam há anos fornecem evidências concretas de que a empresa é autônoma em relação ao seu fundador.
A separação entre patrimônio familiar e empresarial também contribui para a gestão eficiente dos recursos. A concentração dos imóveis em uma holding, a formalização dos contratos de locação com a empresa operacional e a definição de uma política de retiradas simplificam a análise e permitem que o comprador avalie o negócio pelo que ele efetivamente é, sem a necessidade de descontar riscos ocultos.
O valor que não aparece no balanço
A percepção da valorização da empresa pela família e pelo mercado tende a apresentar discrepâncias, que não se manifestam de forma significativa nos valores numéricos, mas sim na estrutura que os fundamenta. Sideni Soncini Pimentel, que, após a magistratura, passou a atuar na advocacia consultiva e estratégica, reforça que regras definidas antecipadamente reduzem disputas sobre o valor tanto em negociações quanto em sucessões.
O advogado Rodrigo Pimentel enfatiza que preparar a empresa para ser avaliada é, igualmente, prepará-la para continuar existindo. As medidas que aumentam o valor percebido são as que garantem a continuidade do negócio após a saída do fundador, tornando a governança um investimento útil mesmo para famílias que não pretendem vender.
Em última análise, o valuation mensura um aspecto que a família raramente observa de perto: a proporção em que a empresa pertence a um indivíduo e a uma estrutura. Quanto maior a dependência de um indivíduo insubstituível, menor seu valor para aqueles que não podem contar com tal pessoa. Essa é precisamente a situação em que os próprios herdeiros se encontrarão.
Sobre os especialistas
Rodrigo Gonçalves Pimentel é advogado, empresário e sócio do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Sua atuação envolve questões empresariais, patrimoniais, societárias e sucessórias relacionadas a empresários e famílias empresárias.
Sideni Soncini Pimentel é advogado, desembargador aposentado e integrante do Pimentel & Mochi Advogados Associados. Após uma trajetória de mais de quatro décadas na magistratura, iniciou uma nova fase profissional na advocacia, com atuação consultiva e estratégica.
